sexta-feira, 1 de maio de 2009

AS OLIVEIRAS TAMBÉM MURCHAM

O sol de início da primavera, naquela tarde de domingo ainda fria e já distante, nos anos 30 da nossa era, inundava de luz a grande área que circundava o majestoso templo de Jerusalém.
Uma grande multidão de peregrinos que para ali acorria, de diferentes pontos da Palestina para participar da celebração da Páscoa, de súbito, foi envolvida por grande entusiasmo. Era a chegada do Rabi da Galiléia, o Jesus de Nazaré, montado em um pequeno jumento e acompanhado pelos seus discípulos e por outros seguidores. Gritos de júbilo irromperam da multidão que O saudava, agitando ramos de oliveira. Como fizera Moisés com o poder do faraó, o Rei dos reis, o Libertador do povo de Israel esmagaria a prepotência romana, libertaria o seu povo do jugo da dominação de César e o conduziria na passagem para um novo período de glórias só experimentado, nos tempos de Davi e Salomão. Era a nova Páscoa de há muito esperada conforme as predições dos profetas que para eles estava prestes a se concretizar.
Mas os eventos que se seguiram não estavam dentro das expectativas daquele povo, ávido por se livrar da opressão de Roma. As suas convicções, no entanto, começaram a esmaecer embora Ele nunca tenha deixado dúvida quanto à sua especifica missão. Mas os interesses imediatos não deixaram para aquela gente uma reflexão alternativa
Por isso, quatro dias apenas foram suficientes para que toda aquela euforia do domingo se transformasse em vociferantes impropérios e exigências de condenação e de execução na cruz para aquele Homem. Os ramos vicejantes de oliveira que foram utilizados, na calorosa e espontânea recepção, estavam murchos como murchas estavam também as esperanças de libertação que tanto acalentaram.
Assim, a Páscoa ou passagem que celebramos permite a quem a vivencia várias reflexões sobre o comportamento humano diante da Boa nova que nos foi trazida pelo Messias e, conseqüentemente, sobre o mundo onde esse mesmo comportamento se estrutura e evolui.
Como passagem, ela mostra a condição efêmera da nossa sobrevivência no planeta. Esse contínuo processo de transição que todos experimentamos poderia nos ensinar a refletir esse estado de renovação permanente a que todos estão sujeitos. Mas se retrocedermos ao tempo das primeiras populações humanas, com certeza, haveremos de constatar que o tempo que nos separa dos primórdios da nossa evolução social há de nos parecer por demais longo embora não o seja para que grandes transformações se operassem.
As disputas por espaço e a contínua busca da supremacia e do poder continuam levando o homem às guerras que matam e que aniquilam a auto-estima das nações refletindo o grau de primitivismo em que ainda vive a humanidade.
Nos grupamentos sociais, o estado endêmico de carência que pauperiza os mais expostos a riscos, a concentração de rendas que avilta e coroe a poupança da sociedade, o egoísmo que isola as políticas públicas mal implementadas que desgastam a confiança nos agentes responsáveis, o descompromisso das lideranças institucionais que envergonha e a preponderância do estado sobre o interesse comum mostram que caminhamos muito pouco na busca de um ordenamento social justo que atenda às necessidades de todos.
É, nesse contexto, que a Páscoa nos permite uma reflexão sobre as desvantagens do imediatismo, mostrando-nos as vantagens da construção do futuro.
O povo queria um rei, um libertador que o tirasse da dominação do gentio e lhe foi dada a certeza de vida eterna. Mas o povo não entendeu a mensagem e a euforia daquela fria e ensolarada tarde de início de primavera culminou, na frustração das suas expectativas. E os ramos de oliveira com os quais saudaram as suas esperanças murcharam como continuam murchando as nossas ao resistirmos construir um futuro comum.
Por Aymoré Alvim, membro da APLAC

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